não se engane, quando faço cara de bobo só escondo meus olhos sagazes da claridade.
planejo cada detalhe da minha reação, meticulosa e minuciosamente.
às vezes não, explodo de repente. chuto o balde, o pau da barraca,
toco fogo em tudo e fico assistindo... no meio da fogueira, no olho do furacão.
não ligo para o que pensa, sou assim: atrevido, inconstante, volúvel às vezes, confuso até.
complicado não! complexo é mais apropriado.
e imprevisível, detesto ser previsível, prefiro ser surpreendente.
e é exatamente assim que você vai lembrar de mim.
com meus cabelos um tanto compridos e embaraçados,
que faço questão de manter sempre no mais cuidadoso desleixo.
mas acredite, é assim que eu gosto.
pra quem!? pra mim mesmo.
assim como minha barba mutante:
ora grande, ora curta, ora cavanhaque, ora mal-feita, ora não-feita.
mas sempre presente, assim como estes óculos escuros.
que escondem os olhos, mas não a visão.
sou isso: um emaranhado de emoções confusas.
um vulcão, ora inativo, ora em erupção.
mas sempre repleto de lava. quente, atrevido, lascivo, vivo.
assim como tudo o que canto, tudo o que falo, tudo o que escrevo.
dual, multifacetado, paradoxal, multicontextual...
sou múltiplo em mim mesmo, múltiplo de mim mesmo.
rearranjo todas as minhas naturezas e as faço colidir.
desmonto meus personagens e me vejo emergir
desenvolvo meu próprio estilo
de ser, de dizer, de cantar, de escrever, de viver, de sentir, de existir
existo em consciência, existo em emoção, existo em loucura, existo em razão
escrevo, divago, questiono, recito, comento, opino, narro.
não chegam a ser ‘
cronipoemontos’ nem são ‘crônicas poéticas’
mas talvez ‘poemas crônicos’.
como crônico é meu desejo de mudança.
camaleônico desejo de renascer. diferente a cada vida.
às vezes infantil, às vezes adulto
às vezes senil, outras apenas imaturo
sou um programa expandido, compilação de meus erros e acertos
porque a idade cronológica, não mede a extensão da vida
mas como diria Freud: “às vezes um charuto é apenas um charuto”
e um poema, muitas vezes, não é mais do que isso – um poema.
então me passa o cinzeiro por favor.